Eu leio horóscopo
Martha Medeiros
O horóscopo serve para nos dar alguma esperança, serve para a gente não se sentir tão responsável por tudo, serve para nos divertir.
Noticiaram meses atrás que cientistas fizeram sérias e longas pesquisas e constataram que astrologia não funciona, que duas pessoas que nasceram no mesmo horário e no mesmo local podem ser completamente diferentes, que tudo o que se escreve e se diz a respeito não passa de um exercício de adivinhação. Eles chegaram a essa conclusão porque não conhecem a Amanda Costa, minha vizinha aí do lado.
Só fui conhecer a Amanda pessoalmente semana passada, na Feira do Livro. Na verdade, a gente foi contemporânea na faculdade, mas depois nunca mais nos vimos, e mesmo ambas trabalhando para ZH, apenas havíamos trocado uns poucos e-mails e nada mais. E, no entanto, quando eu a leio no jornal, chego a imaginar que ela está escrevendo só pra mim. Me sinto a única leonina do espaço zodiacal. Leoninos se sentem os reis do universo, você sabe.
Eu comecei a ler horóscopo quando era uma adolescente apaixonada: toda garota apaixonada lê horóscopo, o dela e o da vítima. Depois casei e aí já não ficava excitada quando o horóscopo dizia que ele iria voltar pra mim. Claro que iria, ele morava no mesmo endereço, iria voltar pra onde?
O horóscopo desapareceu da minha vida junto com a Zora Yonara, passei muitos anos sem dar a mínima, até que surgiu a Amanda, com seu texto solto, em tom de bate-papo, e comecei a ler de novo. E não é que a mulher parece que nos conhece mesmo? Se eu tivesse mais tempo, leria também o dos outros 11 signos. Mas isso não quer dizer que eu concorde que horóscopo não serve pra nada.
Horóscopo serve pra nos dar alguma esperança, serve pra gente não se sentir tão responsável por tudo, serve principalmente pra gente ter contato com algo lúdico em meio a um jornal sempre tão comprometido com a realidade dos fatos. E serve para nos divertir! Li numa revista inglesa um horóscopo que é tudo o que a gente sonha na vida: ele diz exatamente o que a gente deve fazer, sem meios-termos. Dia 5, doe suas roupas velhas. Dia 11, assista a O Poderoso Chefão. Dia 16, compre uma orquídea. Dia 20, ouça música techno. Dia 24, use pérolas. Dia 28, não como nada que leve coentro. Dia 31, nem ouse retornar o telefonema daquele don-juan.
Se tudo isso realmente desse certo, o horóscopo seria uma nova religião. Mas como horóscopo não é para dar certo e sim para dar mais leveza e fantasia à vida, sarava, aleluia, salve, salve! Que venham conselhos, avisos, previsões: ninguém segura o tranco do dia-a-dia sem uma forcinha dos astros e uma pequena dose de sonho.
Domingo, 21 de novembro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.